Cria de Marechal Hermes, time do Botafogo campeão da Conmebol suplica pela revitalização do local

 Cria de Marechal Hermes, time do Botafogo campeão da Conmebol suplica pela revitalização do local
Metade do elenco do maior título internacional do clube teve origem no antigo estádio, hoje abandonado. Capitão Nélson, zagueiro André e atacante Marcelo avisam: "Aquilo lá dá caldo"

Festa, reencontros, homenagens... Mas também há espaço para cobranças. Na semana em que o Botafogo comemora 25 anos da conquista da Copa Conmebol, maior título internacional da história do Alvinegro, os campeões daquele time desacreditado e que surpreendeu a América do Sul fazem um pedido para o clube: revitalizar Marechal Hermes, onde metade daquele elenco de 1993 teve sua origem e atualmente está sem utilização.

Ao todo, 15 jogadores comandados por Carlos Alberto Torres naquela campanha são frutos de Marechal Hermes: o goleiro Willian Bacana; os zagueiros André Silva, Cláudio e Rogério Pinheiro; os laterais André Duarte, Clei, Eliomar e Alexandre Agulha; os volantes Nélson e Fabiano; e os atacantes Marcelo Carioca, Marcos Paulo, Luciano, Rocha e Sandro Silva). Nascido ali perto, na Vila Kennedy, e capitão daquele time, Nélson suplica por uma atitude do Botafogo:

– Cheguei lá com 14 anos, magrinho, morava em Marechal Hermes. Semana passada passei por lá e está fechado. Botafogo, por favor, não deixa morrer. Há tempo de ressuscitar aquilo lá. Aquele estádio, quando eu treinava e morava lá, era chamado de Estádio Mané Garrincha. Em homenagem ao Garrincha, o maior ídolo da história do clube, por favor, restaure ele. Aquilo dá caldo, dá futuro. Hoje estamos comemorando uma história que veio de Marechal Hermes.

 

 Time de juniores do Botafogo, que abasteceria o elenco de 93, em Marechal Hermes — Foto: Arquivo Pessoal

Último a converter sua cobrança naquela decisão por pênaltis contra o Peñarol no Maracanã, o ex-zagueiro André Silva nasceu em Bangu, onde mora até hoje, e foi criado em Marechal Hermes. Ele ainda passa com frequência pelo antigo estádio e centro de treinamento do clube e confessa sentir dor ao ver o espaço abandonado nos dias de hoje:

– É com muita tristeza que vejo Marcehal Hermes daquele jeito. Moro aqui próximo e de vez em quando passo por ali, sempre passa um filme. Vivi praticamente 10 anos fazendo esse caminho, convivi mais tempo dentro do antigo estádio do que em casa. E dá um aperto grande no coração de ver como ficou largado de uma hora para outra, infelizmente. Aquilo trouxe muitos jogadores de localidades próximas que se tornaram profissionais. É muito triste o que está acontecendo lá. Você passa na rua e vê que não tem nada, é uma história que fica apagada.

 

 

 Marcelo Carioca treinando em Marechal Hermes em 1990 — Foto: Reprodução / Jornal dos Sports

O local também era alojamento para quem vinha de outras cidades, como foi o caso de Marcelo Carioca, natural de Nova Friburgo. O ex-atacante lembra a inspiração que era para os garotos ao verem os profissionais treinando por lá e acredita que o inédito título em 1993 é uma prova de que vale a pena investir naquele espaço:

– Marechal Hermes é um lugar muito especial para mim, comecei ali com 15 para 16 anos, via o profissional treinando, nós tínhamos sonhos de chegar lá... Passamos boa parte da nossa vida lá. A gente lamenta, eu acredito que esteja abandonado, a última vez que passei por lá estava assim. Mas é um local especial onde o Botafogo formava jogadores. Tanto é que a base da Conmebol realmente veio dali. Gostaria de aparecer por lá e ver tudo funcionando novamente.

LOCAL JÁ RECEBEU JOGOS E PROJETO DE CT
O campo em Marechal Hermes era do Sport Club União e foi inaugurado em 1922. No final dos anos 70, passou a ser usado pelo Botafogo, que havia perdido a sede de General Severiano e precisava de um local para treinar e realizar jogos. A construção do então estádio batizado de Mané Garrincha foi em 1977, com arquibancadas tubulares e capacidade para 20 mil pessoas.

 Projeto do CT previa quatro campos e reforma de R$ 14 milhões em 2010 — Foto: Divulgação

Sua inauguração aconteceu no ano seguinte, na vitória por 2 a 1 sobre a Portuguesa. A última partida do profissional no local foi em 1986, na vitória por 1 a 0 sobre o Goytacaz por 1 a 0. Com a parceria com a Prefeitura de Niterói para assumir o Caio Martins, e após recuperar sua sede social nos anos 90, o Botafogo foi deixando o espaço de Marcehal Hermes para a base.

Na gestão de Maurício Assumpção, o clube chegou a anunciar a revitalização do local para criação de um CT de ponta. O projeto, orçado em R$ 14 milhões na época, previa a construção de quatro campos, piscina de 25 metros, centro médico, caixa de areia e um hotel-alojamento. Mas com o terreno em uma disputa judicial, envolvendo também o Exército, a ideia nunca saiu do papel.

FONTE: GLOBO.COM